A indústria brasileira encerrou 2025 sob o signo da desaceleração, em um ambiente marcado por inflação em queda, perda de dinamismo produtivo e aumento das incertezas no cenário internacional. É o que revela o Boletim de Conjuntura Industrial – Edição 43, divulgado pela Esalq/USP. Elaborado sob a coordenação do professor Carlos Alberto Vian, do Departamento, o estudio traça um retrato abrangente da economia ao fim do ano e aponta desafios estruturais relevantes para 2026.
Apesar do crescimento econômico de 2,5% no ano, sustentado principalmente pela agropecuária, a indústria apresentou desempenho praticamente estagnado, refletindo a fragilidade da demanda interna e a intensificação da concorrência externa. No último mês de 2025, a atividade econômica registrou retração de 0,2%, sinalizando perda de fôlego no encerramento do período.
No campo inflacionário, os dados confirmaram um processo de descompressão gradual. O IPCA fechou o ano em 4,26%, próximo ao teto da meta, enquanto o INPC ficou em 3,9%. Já os preços ao produtor recuaram de forma significativa, com deflação de 4,56%, evidenciando não apenas alívio de custos, mas também a fraqueza da demanda industrial e o aumento da competição internacional.
A confiança empresarial permaneceu baixa ao longo de todo o ano. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) manteve-se abaixo do nível neutro, refletindo cautela nas decisões de investimento, especialmente entre pequenas e médias empresas. Ainda assim, as expectativas para os próximos meses mostraram-se relativamente mais favoráveis do que a avaliação do cenário atual, indicando um descompasso entre percepção presente e perspectivas futuras.
Os indicadores de produção industrial reforçam o quadro heterogêneo. A produção de bens de capital recuou 1,5%, impactada principalmente pela queda no setor automotivo, enquanto os bens de consumo também apresentaram retração de 1,1%. Apenas os bens intermediários registraram crescimento, de 1,5%, sustentando parcialmente o desempenho industrial. Ao mesmo tempo, os investimentos perderam ritmo no curto prazo, com queda de 4% em dezembro, sinalizando enfraquecimento do ciclo de expansão produtiva.
Entre os segmentos, a siderurgia concentrou parte expressiva das dificuldades. A produção de aço bruto caiu 1,6% em relação a 2024, enquanto o mercado interno foi fortemente pressionado pela entrada de produtos importados, sobretudo da China, responsável por 64% do aço laminado consumido no país. Em determinados momentos do ano, o material estrangeiro chegou a ocupar um terço do mercado nacional, forçando ajustes operacionais nas usinas e elevando os níveis de estoque. As exportações ajudaram a mitigar perdas, mas concentradas em produtos de menor margem.
Mesmo diante desse cenário, o mercado de trabalho industrial manteve relativa estabilidade, com variações marginais ao longo do ano, enquanto a utilização da capacidade instalada apresentou pouca oscilação, indicando ausência de expansão relevante da produção.
No comércio exterior, o país registrou superávit robusto, impulsionado pelo crescimento das exportações, que avançaram 5,7% em 2025, superando o ritmo do comércio global. Ainda assim, persistem desequilíbrios regionais, com estados como São Paulo e municípios industriais como Piracicaba operando com déficits comerciais, reflexo da forte dependência de insumos importados.
Para 2026, o cenário permanece incerto. A escalada de conflitos geopolíticos, especialmente no Oriente Médio, já impacta preços de commodities, pressiona a inflação e eleva a volatilidade cambial. As expectativas indicam inflação em torno de 4,2%, acima da meta central, o que tende a manter a política monetária em posição cautelosa.
Diante desse quadro, o boletim conclui que, embora a economia brasileira tenha demonstrado resiliência em 2025, a indústria segue como o elo mais vulnerável. A combinação de demanda enfraquecida, baixa confiança e competição externa crescente reforça a necessidade de estratégias que aumentem a competitividade e estimulem o investimento produtivo em um ambiente cada vez mais desafiador.
